sexta-feira, 23 de março de 2007

Next Big Thing?

Vêm de Inglaterra, o que é perigoso, pois trata-se de um território onde analistas, jornalistas, revivalistas e outros istas há muito procuram, com preocupante insistência, uma banda que substitua o quarteto fantástico de Liverpool. Sem êxito, felizmente. Os The Sunshine Underground (nome roubado a uma música dos electrónicos The Chemical Brothers) não são apontados como os sucessores dos Beatles, e isso fica-lhes bem. E eu também não os vou meter nesse patamar perverso. São bons. E disso não tenho grandes dúvidas. A seu favor têm, à partida, o facto de não serem de Liverpoool nem de Londres. Vêm de Leeds, ou de lá perto, conheceram-se na escola, como acontece com inúmeros grupos, e tocam um indie-rock estranhamente dançável. A rampa de lançamento deste quarteto foi a tourné britânica dos norte-americanos LCD Soundsystem. Depois de conquistarem o seu espaço em estúdio, gravaram Raise the Alarm, o disco de estreia, e fizeram-se à estrada. Na Primavera do ano passado passearam-se pelos principais festivais rock da Europa e, «em casa», asseguraram o título de Melhor Banda ao Vivo no Leeds Music Awars, relegando para segundo plano os Kaiser Chiefs, mais «adultos», mais mediáticos e já habituados a tocar para plateias gigantes, que enfrentam de peito feito e conseguem conquistar ao fim das primeiras canções entoadas, como aconteceu nas duas actuações que vi deles, na primeira parte dos concertos dos U2 em Barcelona e em Lisboa, em Julho e Agosto de 2005.
Funcionam bem ao vivo, já se percebeu. Mas arrebatar e pôr aos saltos milhares de pessoas não se faz apenas com energia. E, diz quem já os viu, os The Sunshine Underground têm-na para dar e vender. A fórmula mágica que faz funcionar os rapazes de Leeds é a inteligência, e a habilidade, para fazer a ponte entre o indie rock e a dance, com as guitarras, ajudadas por alguns pedais de efeitos, a assumirem o protagonismo. Se quisermos desmontar o código genético dos The Sunshine Underground poderíamos encontrar como principais influências o movimento Madchester (com os Happy Mondays como protagonista) e os nova-iorquinos The Rapture. Ou, resumindo o projecto de uma forma mais simples e eficaz, trata-se de «uma banda de festa», diz o vocalista Craig Wellington. O cruzamento destes dois mundos torna-se evidente nos temas
Put You in Your Place, I Ain’t Loosing Any Sleep ou Wake Up, por exemplo. Mas há mais, igualmente bom, ao longo de todo o disco. Com dois ou três temas menos conseguidos, Raise the Alarm revela-se, no final das contas, uma belíssima estreia. Bloc Party, Franz Ferdinand, Kasabian e Kaiser Chiefs têm concorrência forte… muito forte.

O filme da vida dele

Os discos deviam ter sempre um filme como ponto de partida. Nem que seja um filme, que nunca tenha chegado às salas, como o que guiou o processo criativo de Paul Nawrata. Depois de 15 anos como DJ na noite austríaca, especializado no género hip-hop, Nawrata, que assina, agora, Urbs, foi remexer nas suas influências mais antigas e propôs-se musicar o filme da sua vida – é disso que se trata ao longo das 11 faixas de Toujour le même film..., apesar de estar lá uma versão, muito lisonjeira para o original, de The Chauffeur, dos Duran Duran – e isso mesmo torna-se nas letras, narrativas sinceras que nos transportam para o universo de Nawrata e, se quisermos, nos deixam integrar o exclusivíssimo elenco deste filme.
Peter Kruder (Kruder & Dorfmeister, Tosca...) – o seu nome aparece estampado num autocolante aposto à capa – ficou de tal forma impressionado com as primeiras demos que chegaram à sua G-Stone (eram seis músicas), que decidiu, de imediato, co-produzir o disco. Toujour le même film... é um trabalho exemplar de arquitectura sonora e revela um requintado bom-gosto na criação de atmosferas sonoras melancólicas, românticas, misteriosas, matreiras e plenas de suspense, bem ao estilo dos filmes franceses dos anos 60. Apesar de as influências estarem situadas lá longe, à distância de décadas – Enio Morricone, Serge Gainsbourg, Francis Lai e, naturalmente, as bandas sonoras de muitos filmes, em especial franceses –, o disco de Urbs é muito actual: foi editado em 2005 e é do melhor que se tem feito no mundo da música electrónica.

Super Popp

A armadilha foi cuidadosamente montada e revelou uma eficácia implacável: a pose da actriz Virna Lisi, o ambiente retro-kitsch dos anos 60, o preto-e-branco e o nome do disco, La Dolce Vita, a remeter para Itália, mais propriamente para o universo felinniano (La Dolce Vita, 1960, realizado por Federico Fellini, com Marcello Mastroianni e Anita Ekberg). É uma das melhores capas dos últimos tempos. E os discos também se compram pela capa (pelo menos eu compro). É um risco, claro, porque o resultado pode não passar disso mesmo: mais uma capa bonita. Não é o caso. A lista de 30 temas que preenchem os dois CDs – onde estão, entre outros, Sam Paglia, Koop, Pizzicato Five, Nino Rota, Marilyn Monroe e Tony Bennett – confirmam as suspeitas. Não são, contudo, aqueles valores seguros o melhor do álbum, por não serem particularmente surpreendentes. É mais interessante partir à descoberta dos desconhecidos e, neste domínio, houve uma música que me chamou a atenção logo aos primeiros acordes: Hip Teens (Don’t Wear Blue Jeans), da Frank Popp Ensemble, uma orquestra inspirada nos anos 60 que, confirmei uns dias mais tarde, valia a pena explorar. Mergulhei de cabeça no mundo Popp. Enquanto não chegavam os discos encomendados na internet – Ride On (2001) e Touch and Go (2005) – fui procurando mais informações sobre o senhor: é alemão, DJ e designer gráfico – foi ele que desenhou muitas das capas e flyers da editora Unique. Farto dos beats repetitivos do house, decidiu dar folga à electrónica e recuperar os velhos órgãos Hammond, os ritmos funk e R&B e a soul dos sixties. O resultado são dois discos bem dispostos e altamente dançáveis (estas são duas das principais funções da música) onde o talento de Popp, que gere de forma irrepreensível os samples electrónicos com as fórmulas musicais de há 40 anos, se junta à voz de Sam Leigh-Brown, também ela DJ. O resultado deste feliz encontro de almas gémeas percebe-se em The World is Waiting , do primeiro disco, e em Love is On Our Side , do segundo. São apenas dois exemplos (provavelmente não serão os melhores, mas é o que há no YouTube...) que aumentam a expectativa sobre o que está para vir. A confirmação está no site do próprio artista: depois de superada a difícil prova do segundo disco (Popp comprovou, em Touch and Go, que a sua genialidade não se tinha esgotado), o terceiro já está em andamento. Conseguirá aguentar-se?

segunda-feira, 12 de março de 2007

Mujer Fatal

Na música, como em quase tudo na vida, o acaso costuma revelar-se um excelente conselheiro, com um grau de sensatez que não se encontra na maioria das decisões mais ponderadas. Foi assim que conheci o disco Femme Fatale, o melhor que ouvi nos últimos meses. Aconteceu num dia tórrido do final de Julho do ano passado, enquanto passeava pelo Chiado, em Lisboa. No pico do calor – deviam ser umas 13:30, mais ou menos, e o termómetro devia estar próximo dos 40º – passei à porta da Fnac e tomei uma decisão tão inteligente quanto óbvia: refugiar-me nos ares condicionados da loja e, ao mesmo tempo, praticar um pouco do meu desporto favorito, comprar discos. Depois de deambular pelos corredores, olhar vezes sem conta para os expositores e passar a pente fino as secções que habitualmente visito – electrónica/novas tendência e pop/rock alternativo – preparava-me para enfrentar novamente o calor. Até que uma «Escolha do vendedor» (passei a respeitá-lo, quase a venerá-lo, mais tarde, apesar de nunca o ter conhecido nem sequer saber o seu nome...) me chamou a atenção: Femme Fatale, de Femme Fatale. Gostei do nome do disco e, automaticamente, do da banda também. Olhei para contra-capa para verificar a editora (um exercício que me dá algumas pistas sobre o que está lá dentro). Mushroom Pillow, ou almofada de cogumelos, em português. Independente e com um nome apelativo – já era o segundo. Os estímulos estavam lá todos – a capa, elegante, quase monocromática, mas com muito bom gosto, também ajudou – e foi-me impossível conter o ímpeto de ouvir o disco (na verdade, não preciso de estímulos tão intensos para ouvir discos, mas estes foram por demais irresistíveis). E assim foi. Após uma audição em diagonal das 10 faixas, percebi que era um disco a comprar. De todas as outras vezes que coloquei o CD no leitor, em casa e no carro, especialmente no carro, confirmei as suspeitas: foi o melhor disco que comprei no ano passado e, para mim, nenhum de 2007 conseguiu, ainda, ultrapassá-lo. Femme Fatale, o segundo da banda (mas é como se fosse o primeiro) é bom da primeira à última faixa.
Vamos lá então perceber o porquê do título deste espaço e, mais importante, que tipo de música fazem os Femme Fatale. O título justifica-se com a nacionalidade da banda. São espanhóis, apesar do nome francófono e de preferirem cantar em inglês, alemão e francês. A música que fazem pode enquadrar-se na macro-definição punk/rock assumidamente electrónico e dançável, ou na etiqueta electroclash. Talvez as influências, citadas pela banda no seu espaço no My Space –
http://www.myspace.com/femmefataleofficialmyspace
– dêm mais algumas pistas: Madonna, no iníco de carreira, Depeche Mode, Bjork, Wire, Ladytron, Interpol, Daft Punk, Chet Baker (sim, jazz!), Zoot Woman, Fischerspoooner, Lali Puna, Nocturnos de Chopin (clássica!), Nouvelle Vague, Portishead, Blondie, Orchestral Manouevers in the Dark (início), P.J. Harvey e muitos mais. Com as devidas excepções, estamos a falar essencialmente de bandas dos anos 80 ou de agrupamentos actuais que vão beber às fórmulas musicais de há 20 e tais anos.
A produção do disco ficou a cargo de Ian Cooper, que já trabalhou com David Bowie, Iggy Pop, Human League, Joy Division e outras estrelas dos idos 80, e isso ajuda a perceber a sonoridade do duo madrileno composto por Flo, fotógrafa de voz quente e sensual que passa a vida a viajar de metrópole, em metrópole (muitos dos temas foram compostos em trânsito, em cidades como Berlim, Paris, ou Buenos Aires) e Dave Zorton, que nunca andou no Conservatório, mas toca um pouco de quase todos os instrumentos – é mestre nas programações electrónicas e, farto do universo trip hop, vestiu com entusiasmo a pele de electro-rocker.
Seria justo desejar que uma grande editora os descubra. A verdade é que isso já aconteceu. Tiveram contrato com a major EMI, mas a experiência acabaria por revelar-se frustrante para ambas as partes. Na independente Mushroom Pillow não têm a projecção mediática e global que, a meu ver, mereciam, mas conquistaram um espaço de liberdade e criação que, numa major, dificilmente conseguiriam ter. Melhor para nós que gostamos de boa música.
Parece que há mesmo males que vêm por bem.